Bellevue
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O QUE ANDAM FALANDO DA GENTE

Revista aU - Arquitetura e Urbanismo - Dezembro 2001

Septos e recortes foram recursos utilizados para adaptar a edificação ao contorno irregular e ao desnível do terreno. Aberturas e transparências convidam a vista enquanto protegem do calor. O resultado é uma casa que parece alçar vôo
Projetar uma casa no Nordeste brasileiro requer, sempre, soluções estratégicas de conforto ambiental. Além das altas temperaturas, é necessário enfrentar os fortes ventos e chuvas tropicais. O projeto desta casa, na Barra de São Miguel, no litoral sul de Alagoas, a 30 km de Maceió, tinha pela frente outro complicador: a forma irregular do lote, com 20 m de frente e 15 m de fundos. Com sensibilidade, o arquiteto alagoano Ruben Wanderley, autor do projeto, contornou o problema, otimizando um partido que atendesse às exigências do programa, mas adaptadas às dimensões de um terreno em declive.

À semelhança de uma embarcação ancorada às margens da praia, a casa chama a atenção pelo toque de leveza e alegria. O cliente, um casal de brasileiros que vive na França, havia procurado o arquiteto pedindo o projeto de uma residência para passar as férias e receber amigos e convidados. Uma casa aberta, espaçosa e, ao mesmo tempo, aconchegante, que aproveitasse o máximo da paisagem desenhada pelo mar, arrecifes e coqueiros.

Apaixonado pela culinária, o cliente desejava ainda uma cozinha ampla conectada ao estar e jantar, com um balcão como único limite, e com vista para o mar, além de cinco suítes e garagem. "Com essas premissas, procurei enfatizar no projeto a luz e a cor, a fluidez dos espaços de convívio, as aberturas para o mar e a sombra", comenta o arquiteto, conhecido, também, por seu traço rigoroso, que se revela em desenhos, caricaturas e histórias em quadrinhos, como as de Lampião e de Calabar, que está elaborando.

Pertencente à primeira geração de arquitetos formados pela Faculdade de Arquitetura de Alagoas, em 1980, Ruben Wanderley estagiou em Lima, no Peru, e, ao voltar, abriu o escritório Grupo Arquitetura. Nessa ocasião, foi convidado a coordenar a equipe de arquitetos da construtora Cipesa. Da equipe participam Olga Wanderley, o nicaraguense Maurício Espinosa e o carioca Luís Fernando Carneiro.

Vivendo a infância numa "casa-grande", no interior alagoano, Wanderley mantém até hoje impressões da vivência em quintais e recintos amplos e generosos, com grandes telhados, alpendres e varandas de uma arquitetura sem barreiras, que continua marcando sua vasta produção de residências e edifícios.


"Herdamos dos holandeses os sobrados conjugados de duas águas com meia parede, além de agenciamentos urbanos em algumas cidades históricas. Da arquitetura portuguesa, disseminada pelo Nordeste brasileiro, absorvemos soluções arquitetônicas eficientes, que visam amenizar os efeitos do nosso clima. Sendo, talvez, o exemplo maior desta arquitetura adaptada à nossa região, a casa-grande dos bangüês e usinas espalhadas pelo Nordeste, com soluções arquitetônicas interessantes, sempre a nos trazer novos ensinamentos", expõe Wanderley.

Neste projeto residencial, com 500 m² de área construída, esses ensinamentos se fazem presentes na definição do layout espacial. Levando em conta a declividade do terreno de 670 m², o arquiteto optou por uma volumetria marcada por septos e recortes, que acompanham a configuração do terreno. Com isso, pôde explorar ao máximo as aberturas para o mar, por meio de varandas, jardins, elementos vazados (conhecidos na região como combogós) e paredes de tijolos de vidro azul. As esquadrias de PVC brancas com vidro duplo garantem proteção sonora e conforto ambiental ao mesmo tempo em que asseguram a transparência desejada. A clarabóia laminada, que faz a junção das coberturas com os septos laterais e os encaixes das vigas inclinadas, reforça a iluminação natural. A pérgola de madeira e a água-furtada, disposta sobre a cozinha, permitem melhor exaustão de ar.

A planta se desenvolve a partir de um pátio central, onde se encontram o estar e a cozinha, e que funciona como o coração, o foco do projeto. Os volumes da composição resultam num jogo de retas e curvas, marcando a residência, que se articula em dois pavimentos. Uma escada de aço inoxidável e granito conduz ao pavimento superior, onde estão situadas as suítes. A integração entre espaço interno e externo não prejudica a privacidade dos moradores. A garagem e as áreas de serviços estão no nível mais baixo do terreno.

Como revestimento do piso de áreas internas e externas sobressai a cerâmica Brennand nas cores branca e cinza. Sobre as alvenarias foi aplicada pintura texturizada azul e branca e, nos septos, cerâmica de cor amarela. Pedras naturais cobrem as empenas das varandas, "uma maneira simbólica de retratar as cores do lugar", justifica o arquiteto.

A cobertura, em telha cerâmica sobre madeiramento, recebeu forro com placas de gesso acartonado. Esse telhado se completa com uma cobertura em duas águas disposta sobre a varanda e duas suítes centrais em forma hexagonal, num gesto simbólico "de se abrir as asas para voar", ressalta Ruben Wanderley. Segundo o autor, "é sempre gratificante encontrar um cliente que aceita a proposta do arquiteto, dando-lhe toda a liberdade para executar o projeto que havia imaginado".


Entrevista Ruben Wanderley

Como analisa o projeto de uma casa?
Eu vivi numa "casa-grande" e aprendi, desde a infância, que uma casa não é só construção, mas um lugar de convivência. A arquitetura deve contribuir para isso.

O senhor também vem projetando muitos edifícios?
Sim, mas é diferente. Projetar um edifício implica uma relação com o mercado, enquanto uma casa exige uma relação mais pessoal, além de nos permitir maior liberdade de criação.

Um arquiteto que o senhor admira?
O Borsoi (Acácio Gil Borsoi). Não fui aluno dele, mas ele projetou muitos edifícios e casas no Nordeste, inclusive em Maceió. E eu aprendi muito com sua arquitetura, na questão da volumetria e do conforto ambiental.

E a arquitetura regional?
A arquitetura regional não se reduz a materiais e soluções locais. Ela deve refletir, acima de tudo, o espírito, o clima e a cultura do lugar. A Universidade de Manaus, projeto de Severiano Porto, que se utiliza de estrutura metálica e madeira, é um exemplo disso. J.W.
Ficha técnica
Projeto arquitetônico: Ruben Wanderley Filho, Maurício Espinosa Filho e Luiz Fernando Carneiro
Projeto estrutural: G3 Estrutural
Construção: Marcos Pina
Ambientação: Silvia Normande

Fornecedores
Revestimentos e pisos: Cerâmica Brennand; esquadrias em PVC e janelas: Bellevue; esquadrias de alumínio: Alcoa; aço inox: Metalúrgica Mundaú; som ambiente: Som Lima; paisagismo: Vegas







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